A mulher que me fez verdadeiramente homem

Eu tive a imensa sorte de ter uma mãe que nunca disse “engole o choro” ou mesmo “homem não chora”. Esta mulher que me formou homem, foi aquela que estendeu os braços de canto a canto, medindo o tamanho do mundo, e me acolheu em suas asas, dando todo o conforto deste mundo medido. Os joelhos ralados eram preços compensados com o abraço que me colocava debaixo de si, perto da mama, que sempre me deu sustento e agora não mantinha seu papel. 

Todo assopro pelas dores de se nascer e crescer foi acompanhado de um beijo quente e molhado que me deixava marca de batom de dar inveja à Xuxa. Lembro de como os meus amigos limpavam desesperados a marca rosada da bochecha e de como eu me admirava no espelho e tocava de leve (pra não borrar) aquele carinho que tinha forma, cheiro e cor. De como era bonito sentir que um pedaço da minha mãe estava me acompanhando de tão pertinho e de como as digitais de sua boca diziam, tão perto do meu ouvido, que me amavam (e ainda me amam). 

Hoje tenho o sonho de ser pai e me preparo diariamente pra ser um pai tão bom quanto minha mãe foi uma boa pra mim, ou seja: o melhor pai do mundo. Me policio, leio livros de psicologia infantil, crônicas de Prata falando sobre a paternidade e crio cenas na minha cabeça prometendo pra mim mesmo o que irei e não irei fazer quando meu sonho se materializar numa criança (ou adolescente) na minha frente e me encarar com os olhos esbugalhados sabendo que eu sou pai dela e eu sabendo que eu sou pai dela e ambos sabendo que sou pai dela e a soleira da porta sabendo que sou pai dele e o livro da cabeceira sabendo que sou pai dela e o vaso da mesa sabendo que sou pai dela e o mundo sabendo que sou pai dela, e que no fim, nada sei a não ser que sou pai dela e que todas as minhas teorias, preparatório e promessas irão por chupeta abaixo no primeiro choro. 

Mas uma coisa é certa, todo esse amor que me engoliu num abraço quando criança está somado aqui em mim e quero que seja multiplicado ali, naquela criança (sempre criança, porque é isso que os filhos são para os pais) que vou amar. 

Enquanto isso, devo confessar que aquele abraço não abraçou só uma criança com joelho ralado pela queda de bicicleta no pátio da escola, mas o homem que hoje escreve essa crônica e que sente falta de um afago a cada dor que aparece no repertório de ser gente grande. A verdade é que você percebe que já é adulto quando o joelho tá ralado e é você quem tem de comprar o Band-Aid. 

Pensando bem, talvez os pais, mais uma vez, tenham razão: somos eternas crianças, afinal estamos sempre precisando de um abraço e um casaco antes de sair de casa.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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