Rua dos livros

Somo todas as crises em mim. Sou o prisioneiro das minhas próprias insatisfações que viraram parte de mim. Se um dia eu me senti o cara anti-prodígio que viveria na sarjeta e colecionaria falhas, hoje sou alvo do meu próprio medo de errar, mas no palco que a vida tratou de montar. To na frente de muitos holofotes de projetos. Me doía ser nada, hoje me dói ser muito.

Dia e noite trabalhando como a Formiga. Dia e noite sem aproveitar a vida, como a Formiga. Mas agora eu quero ser a Cigarra. Tenho vontade de abandonar tudo e viver da minha arte na praia.

Esses dias passei a mão nuns livros de promoção da livraria aqui da minha cidade. O pó subiu, o pó meus irmãos, o pó! Pó de livro, pó de tempo, de guardado, pó de mim mesmo. Era eu lidando com a vida que me mostra sob a cortina empoeirada como o tempo passa, como eu passo e como as uvas passam.

O sentimento de doação veio me visitar e trouxe poeira lá de fora pra dentro. Sinto que tenho me doado pro mundo e esquecido de deixar um pouco pra mim. Senti vontade de deitar de bruços na cama, erguer os pés pro alto, abrir um livro e sair só depois que o sol se pôr e de digerir o “fim”. Porque são nessas divagações de vida literária que a real faz sentido, é no simples, em cada curva da textura de uma página, em cada cheirinho que sobe enquanto as páginas te alimentam, em cada palavra que te embebeda da vida alheia permissiva a ser espiada.

É disso que se trata! Dessas tardes perdidas (ou investidas, diga como quiser) nas ruas empoeiradas de livros baratos, deixados de lado por anos, como uma relíquia jamais valorizada. Brutos que não deram valor, pobres palavras filosofadas por pobres autores nunca lidos. Essas ruas que me tomam de rumo estremecido por aquele alô do pedido de carona que dei pra Kombi do tempo livre que acabou de passar.

Ah se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava encher de poeira de livros, pra que pudéssemos ler nas entre-pós de cada pedacinho daquela literatura rara vendida a 4 reais na saleta da direita e a 3 na da esquerda, mais pra frente. Eu quero os livros de ciranda e os de varanda. Os livros de quem é criança e os de quem um dia já foi, mas sonha em sépia, com mãos no queixo, de quando bolinha de gude era sua única conquista mal sucedida.

Aquela tarde bonita, que flerta com tua íris e aquece seu coração. Um bom dia pra se viver e também pra se morrer. Aquele sol que te deseja uma ótima leitura, segura a lua pra te deixar mais tempo sob o teto alaranjado, que te entende e acompanha juntinho e quentinho a trama e o drama em tuas mãos espalmadas no meio de um livro esquecido e que vive, agora, sua Hora da Estrela antes da morte da maior delas.

A noite, entretanto, nos deita fria, pede que coloquemos nossos casacos, pois vai esfriar. Que nos dá um beijo no coco da cabeça, pede que a gente vá dormir cedo, mas que toca valsa na madrugada pros apaixonados, como eu, se debruçarem mais próximos de seus amores em brochuras e se deliciarem ainda mais débeis em suas aventuras pelo lirismo de outro apaixonado.

Assim, antes que eu durma com a história de ninar da mãe-lua, as luzes da rua empoeirada se apagam, o pó voa pra longe, longe, longe das minhas divagações e mais perto das minha mão que agora apoia toda minha fé em dias melhores no livro da banca de livros que oferece esta edição a 4 reais.

“Largarei empresa, largarei projetos, livros acadêmicos de escrita em andamento e viverei pelo amor de simplesmente viver.” Sinto na pele a angústia me deixar e o boêmio me cobrir com aquele leve, quentinho e mal cuidado manto da liberdade. Pago os 4 reais, levo o livro que há de mudar minha vida, coloco na prateleira junto com mais outros livros de 4, de 3 ou mesmo de 2 reais empoeirados e me sento pra  fazer a campanha do cliente, pois preciso entregar amanhã às 9 da matina e não tenho tempo pra mais nada, além de sonhar com as ruas empoeiradas do tempo e do prazer de se viver.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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