A Mulher e a Cartomante

Conheci essa mulher, de vários nomes, vários trejeitos, várias curvas, várias cores e, sobretudo, várias histórias. Nesta, dizia ela, apaixonada pelos mistérios da vida que só!, se atou numa amiga e partiram no Chevette 85, verde oliva, rumo à cartomante. Luzia disse não acreditar, são essas bobagens da vida pela experiência de se ver o futuro pela boca duma charlatona, disse ela. Maria não acreditava nessas coisas de sorte, não acreditava em mistérios da vida, não acreditava em cartomante, mas estava de joelhos piedosos sob o chão dia após dia rezando seu Ave Maria seguida do Creio em Deus Pai todo poderoso.

Mas aí, prosseguiu ela, a mulher toda pomposa, cheirando a vento de meio dia das balsas de Santos com fumo doce (era incenso), tirou a primeira carta, fez careta. Marieta imitou pra mim. Uma mistura de desgosto com prisão de ventre. Tirou a segunda, fez de interessante. Algo como “arroz branquinho, esse”. Mas foi na terceira, meu amigo, disse ela, foi na terceira que o pulo me deu na espinha. Não seria frio?, intervim. Fique quieto, homem, foi pulo, pois pulei feito um gato com água fria. A mulata fez cara de miragem, como quando a Nossa Santíssima apareceu lá pelas águas de Trancoso pra Emanuel (história que me contou mais tarde). Disse que tinha meu futuro nas mãos e envolvia amor pra vida toda. Fiquei faceira, claro, como não?! Sempre sonhei com véu e grinalda na Igreja lá de Juazeiro, onde nasci e onde hei de perecer.

Agitada, Dona Mariana parecia excitada em contar a história que havia sido contada e recontada tantas vezes pra comadres, vizinhas, colegas e desconhecidos, bem como eu, naquele ponto de ônibus, esperando apenas ir e seguir meu dia comum, após a história de Judite.

Apesar de não crer, como já disse, continuou ela, foi porreta. Isso aconteceu ano passado, passei o ano todo esperando, esperando e nada. Batata! Cansei de esperar, me encarei no espelho, me senti tão bonita, mas tão bonita, que resolvi seguir sozinha, meu filho. Pois bem, a cartomante pode ter ficado com meu dinheiro e tentado me engabelar prometendo o amor verdadeiro pra vida toda, mas se há uma coisa que ela não me tira é a razão de que a vigária estava contando seu conto pra eu cair que nem patinho. Mas não deixei que me abalasse! Até porque sei que ela estava a dar gargalhadas da cara de sua clientela enquanto fuma aquele cigarro fedorento! Pois bem, quem é que está rindo agora, afinal?!

A senhora de setenta anos continuou cantando vitória por sua maestria de não se deixar ser enganada, enquanto fazia sinal pro 720 que vinha chegando. Subiu com dificuldade, deu seu adeus caloroso e seguiu viagem de mulher não-enganada pela cartomante. Mal sabe, pobre Janete, que quem a enganou foi seu reflexo. A verdade é que Sônia acredita em cartas, mistérios, signos e amores, mas tem medo da represália. A verdade é que Júlia ficou ajoelhada, dia após dia, esperando por seu amor prometido. A verdade é que Ana não reparou que o amor de sua vida já havia se apresentado pra si há tempos, como a cartomante previra, ali, no espelho, quando prometeu pra si que não precisava de homem pra ser feliz. A verdade é que Malu se ama e, por isso, achei que não deveria mostrar-lhe a verdade. A verdade é que a história da miragem de Emanuel é realmente intrigante, mas que deixarei pra outro dia, bem como Flora e seus vários nomes, vários trejeitos, várias curvas, várias cores e, sobretudo, várias histórias.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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