Coisa de velho

A idade chegou! 

Não que eu não tenha reparado no espelho as rugas aparecendo quando sorrio, ou nas entradas que estão aparecendo de supetão e marcando sua trilha da infelicidade, tornando a testa e a nuca um só coração, até que a morte os separe. Não que eu não tenha tomado mais cuidado com a alimentação, com a respiração (vide umidificadorzinho ligado full time), com alongamentos mais frequentes, com dores aqui e ali mais pro lado, bem embaixo, quase… quase… aiiiiii… arrr… Não que eu não tenha me tocado que minha geladeira anda mais farta de frutas e verduras e com menos hambúrguer e miojo. Não que eu não tenha percebido que minha gaveta de remédios já quase não fecha, com comprimidos saltando toda vida. Não que a agenda já não tenha gritado que meu aniversário é daqui uma semana, mais uma vez. Não que eu não saiba que a idade chegou.

Mas os últimos eventos advindos dessas últimas horas que ficaram no passado, marcaram meu presente e meu futuro. As últimas horinhas foram reclames especiais da vida e do tempo pra me dizer: a idade chegou, meu querido, melhor começar a procurar asilos.

Como quando eu coloquei água pra ferver, mas ocupei a mente com mais dois afazeres e… bem… a água evaporou, o cliente ficou na espera e o texto inacabad

Como quando deu dez da madruga boladona e eu travei uma batalha terrível, sanguinária, lendária e boba com meu sono, porque eu queria ficar até mais tarde – como quando criança -, porque eu não admiti ir dormir tão cedo, porque eu sou uma coruja e sempre assisti o Corujão, desenho e até o Telecurso 2000 sem nem titubear, porque eu tenho insônia e jamais dormi cedo, porque eu zzzz…

Como quando era 6 da matina e eu abri os olhos por livre e espontânea vontade e pensei: que porra é essa, vida? Acordei antes do dia nascer, antes do sol, antes dos meus vizinhos, antes da vida raiar, de Gene Kelly cantar, antes do despertador! Absurdo! Absurdo! Idade!

Como quando eu estava saindo, de manhã, e tentei abrir a cancela do mercado com o controle do portão do meu prédio. Como quando eu cheguei em casa, guardei as compras, tomei banho gelado… GELADO! Como quando eu li um livro, dei “bom dia, como vai sua tia”, tomei um café, comecei a trabalhar, olhei no relógio e ainda não eram nem nove e meia da manhã. Idade!

Quem é esse? Quem sou eu? O que está acontecendo comigo? Idade!

Agora a água está fervendo, pela segunda vez no dia, e – dessa vez – não vou esquecê-la. Não dessa vez! Vou observar, ficar atento. Quando estiver borbulhando de paixão, apagarei seu fogo na marra e, brutalmente, obrigarei – entre seus gritos de vapor – passar meu cafezinho diário, no coador marrom, de tecido, igual ao da minha avó. Idade! 


Sincero, eu espero
Gui Morais
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