Aquele vazio cheio de um silêncio barulhento

Tem um silêncio alvoroçado acontecendo na minha cabeça. Há tanto. Há tanto. Há tan-to. Existem um zilhão de mentes vivendo aqui. Um barulho de carro ecoa uma, duas, três mil vezes. O latido do cachorro ali na esquina da quinta avenida é uma manada (sim, “manada”) berrando no meu ouvido. Uma voz fala mais alto que outra que fala mais alto que a outra QUE FALA MAIS ALTO QUE A OUTRA… É tanto, um cheio, um super-lotado, de puro nada.

Os ocupantes não tiveram assento marcado tampouco vida social antes da habitação. Eles falam, pensam, não param. São todos hiperativos! Acontece que eu não sou. Preciso sentar, preciso andar, preciso correr, preciso dormir. Tapas na mesa e ninguém me ouve. Tapas na cara e ninguém se recobra. Tapas, tapas, tapas, pá!, pá!, pá!, releitura perfeita de Maria Clara Diniz em Laura. Nenhum efeito.

Quero meditar, mas ninguém se cala nessa merda! Todos falam, ao mesmo tempo, e não entendo nada, porque não dizem nada. É pura bagunça. Paro, cruzo as pernas, respiro, conto até 10, 20, 30, 40, 1 carneirinho, 2 carneirinhos, São São Longuinho, Minha Nossa Senhora, Deus Pai poderosão, Iemanjá, Rubem Braga, 0800, Disk Pizza, Sebastião da padaria, Pedro do bar, você aí embaixo, você aqui do lado, você que me lê, alguém pode me ajudar? Preciso meditar!

Sento pra escrever, tento ouvir uma dessas vozes, mas não param, simplesmente não param. Todas contam histórias, nenhuma começa, nenhuma termina, só sol que a lua me partiu onde nem sequer comi aqui perto de longe fora um dia que foi por ali sem nexo. Por favor, caras mentes, preciso de coerência, preciso escrever.

Minha cabeça tem um cinto de couro apertando mais, mais e mais. E quando eu acho que vai explodir, o cinto mostra que pode ser mais cruel. A dor não lateja, é linear, constante, maldita. Pega de fora à fora. Não perdoa um segundo. Espanta os fios dos cabelos, espanta o bom humor, espanta coerência, mas não espanta o povoado.

Sinto que vomito e gozo e respiro e inspiro e transpiro com a facilidade que as cataratas têm de fazer seu salto natural teatral, posando pras fotos dos turistas, dia após dia, dando suas vidas por um único salto suicida e nos ensinando que estão de passagem, bem como esse ethos montando suas barracas, armando suas tralhas e bagunçando o interior e a capital da minha mente.

Minha mente! Ah, a minha mente! Ferve como Eno Guaraná naquele copo meio cheio (ou será meio vazio?) que é a minha vida. O agito cheio do seu vazio infinito transforma minha cabeça na Sapucaí do Divertida Mente, enquanto tento me concentrar pra não cair na linha fina, reta, bamba, que é a responsabilidade de ser um adulto. Independência ou morte!(?) Estranho as palavras serem separadas pela conjunção de alternância, se – no fim do dia – a ambivalência não é contrária. 

Essa multidão, barulhenta, mal educada, fazendo da minha tristeza uma diversão inusitada, que volta às origens primatas de quem só quer ser selvagem, me joga na cara a falta de maturidade pra lidar comigo mesmo. Irritado, esgotado, estressado. É estresse! Falta de café, falta de dinheiro, falta de uma boa leitura, falta de comida gordurosa, falta de escrever, falta de paz, falta de tempo, falta de descanso, falta do que fazer, falta de vergonha na cara. É falta! 

Enquanto isso, a única voz que consigo controlar, é um fio de voz, aos solavancos do cansaço, assoprando em algum espacinho, encurralada como em uma lata de sardinha, ou mesmo num transporte público às 18, ou ainda numa loja de liquidação em dezembro, com gente lhe pisando o pé, arrancando o cabelo, falando pelos cotovelos, suando pelas ventas, sofrendo com o calor humano e sendo esmagada aos poucos por esse monte de nada, dizendo: me deixem dormir.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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