Muro das lamentações

Peguei meu Rubem Braga, um banco alto e fui fazer meu tolo ritual de leitura ao pôr do sol. As nuvens enegrecidas pela chuva de minutos antes permitiram que o sol tivesse seu dia de timidez. Opaco, o sol permaneceu escondidinho, mostrando raios amarelados e alaranjados por todo o céu, mas nada da bolota brilhante dando seu show diário ao dizer adeus.

Entretanto uma figura bizarra sobrepôs à leitura ou mesmo ao vergonhoso sol daquele dia. Com bobes verdes encaracolando os cabelos, a senhora voluptuosa, em seu pijaminho azul bebê, apoiou os cotovelos na janela do prédio da frente e olhou para o nada. A cabeça da senhora divagou por longos e melancólicos minutos em sua vista de alvenaria branca, azul e vermelha da qual meu prédio é pintado.

Logo uma mão apoiou seu ombro, um senhor. Trocaram palavras mal humoradas. As mãos violentaram o vento. As pelancas de seu braço dançaram livres sob a falta de mangas da vestimenta e suas curvas embarcaram na montanha russa de seus movimentos pouco bailarinos. 

Intrusos expulsos, a senhora voltou para a posição tão bem ensaiada de antes. Suspirou fundo, profundo, um suspiro cheio de lamentações, lembranças e sonhos que expeliram-se desfilando sob seus olhos agora tão opacos quanto o sol daquela tarde de sábado. A divagação da senhora era abobada, longa e a deixou tão longe quanto eu, quanto o sol ou quanto ela mesma. A mulher se transformou num poço fundo de cair de cabeça. Aquela expressão que te toma, te domina e te afasta junto. 

Minutos a fio, a senhora de bobes e pijama de sábado, deu de ombros, não viu o sol ou seu adeus. Já estava escurecendo e de nada pôde aproveitar da performance majestosa do deus Sol, como em dia após dias, o espetáculo natural para si é apenas parede. Como dia após dia seus desejos se defrontam com o muro. Como dia após dia sua esperança é limitada por uma fronteira de alvenaria. Como dia após dia sua visão já turva pela idade é obrigada a olhar apenas contra o horizonte onde os sonhos se tornam reais, o amor é pleno e a vida vale à pena. 

Tive o impulso de gritar-lhe que não se entristecesse, pois hoje fomos todos iguais: não vimos o pôr do sol. Mas pensei melhor, afinal, o que sou eu neste momento além de mero expectador do expectador? Pois deixe que ela imagine como teria sido e que se engane com a beleza da imaginação, melhor do que saber da dura realidade de que seus sonhos e amores nunca existiram. 


Sincero, eu espero
Gui Morais
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