Carta de saudade

Quero seus braços estirados pra me crucificar, cravar meus braços nos seus braços em abraço. Me perder nas curvas do seu corpo. Queimar no calor do nosso amor. Viver em você e te ter assim, de moradia terna e eterna, chamar de casa, lar e te levar pra onde quer que eu for e me deixar levar pra onde quer que você for, pois assim, só assim, me sentirei em casa onde estiver.

Entretanto a paz de estar em casa nos falta, a companhia um do outro também. A única que nos vem é a saudade. E, por isso, te amar infinito e mergulhar em você é morte diária, com hora marcada. No atestado está que morri afogado de amor, mais uma vez. Estar sem você é estar sem mim, por isso tenho a falta riscada em Bic a cada amanhecer. Meu amor, eu te digo, não é fácil tentar se encontrar a cada novo dia.

A saudade já é presente, amiga de prosa diária, amiga leal, todo dia está aqui do meu ladinho me contando sobre sua dor. A ausência que sinto não é poética como de Drummond, mas dolorida e enfática de galocha. 

Existem exponenciais subterrâneos de meu coração que só querem estar com você e dias, vários dias, estes vêm a tona como um tsunami que margeia cada parte de mim. Violenta minha ordem, encharca meu coração, me deixa cheio de saudade e, mais uma noite, me perco no emaranhado azulado deste mar em céu, que é o amor sob a sofreguidão da saudade.

Enquanto isso, eu só queria você aqui, o aqui seu me faz falta. Passar café e servir duas canecas. Abrir o pote de sorvete e pegar duas colheres. Fazer o almoço e pôr dois pratos. Fazer o jantar e servir duas taças. Sorrir e não precisar do espelho pra ter um sorriso em troco. Dizer que te amo e ouvir suas juras. Sentir o peito conversar com o outro porque eu te amo tanto, mas tanto, que eu posso dizer um zilhão de vezes, que nunca será suficiente. A frase, inclusive, já virou tabu dos grandes. Já vem acompanhada do “bom dia”, do “como vai?”e, até, do “batata grande, por favor”. Mesmo o banal do dia-a-dia não torna banal a poesia daquela que virou vício ser declamada pra você. Mas esse amor que sinto não se traduz, não se verbaliza, só reverbera. É algo completamente fora, apesar de dentro. Antagônicos a parte, o fato é que “eu te amo” já não nos atende, por amarmos demais. E nem tão grande amor aproxima os corpos, só cria e procria a saudade. Física, filha da puta!

O mundo me vem estranho e emaranho e arranho as ruas com meus cacos e trincos tentando sobreviver até te ter, por perto, aqui perto, mais perto, em mim. Então se achegue, se apegue, se deite e prometo não te machucar, vou me juntar, me colar, me colar em você. Seremos um, e assim não terei de lidar mais uma vez com este desespero só de sol em sol, dó, ré, mi, fá, lá, si, seu.

Por isso eu prego pra me pregar em cada beijo molhado e melado de meu amado. Por favor, e agora falo direto com Dona Saudade, sente-se pois precisamos conversar. Me deixe me entregar e estar com ele, pertinho, fundir, virar um. Em nome do amor, eu lhe digo. É meu apelo! Meu desespero: nos deixe na paz de sermos um.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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