Ao meu amigo infeliz

Meu amigo imaginário se chama Bob.

Bob tem outros amigos imaginários. Ora é elefante, ora é elegante, ora é lagosta e já foi até mosca. Pra mim, Bob é um garoto, apenas um garoto, dentro de calças curtas cor caqui, camiseta azul bebê e tênis listrado preto e branco. O olhar é distante, longe de tudo, longe de você, longe de mim, completamente sonhador.

Pobre Bob, fazia escolhas erradas, vivia pra pedir benção dos amigos em suas atitudes. Assumiu a mutação como ordem da razão, tinha medo de ficar sozinho, por isso se redimia ante as vontades alheias. Pobres amigos de Bob, eram egoístas, nunca o conheceram de verdade. Conheceram o elefante e a lagosta, mas não Bob. Nunca saberão da magia que é admirar aquele olho sonhador e aquele sorriso de leite de quem ri pra nuvem do céu, pro vento da terra e pro silêncio do universo. 

O que acabou por silenciar foi Bob. Murchou que nem ameixa! Enquanto os outros colecionavam bolinhas de gude, Bob colecionou inseguranças, medos e personagens. Cresceu logo, ficou amargo, envelheceu rápido, foi infeliz. A idade o traiu, a vida e os amigos também. Confiou demais sua felicidade no outro e esqueceu de ser feliz por si. Enrugou os olhos, curvou as costas pros outros passarem, e as comprometeu. Diferente dos amigos, que tiraram o corpo fora do compromisso com Bob, lavaram as mãos, os pés e o próprio Bob. Lavado de suas vidas, Bob passou o resto de seus dias sozinho. 

Esbarrei nele esses dias. Estava confuso, entrevado em lembranças antigas que lhe confundiam o presente. Me olhou triste, não me reconheceu. Seus olhos não sonhavam mais, carregavam apenas lembranças e olheiras. As noites mal dormidas, pelos pesadelos que lhe atormentava, ilustravam a perda racional daquele amigo. Me sensibilizei. Era um bom amigo, se desdobrava como papel pra quem lhe era pedra. Pena ninguém o ter valorizado. Pena ele não ter me valorizado. Pena nunca ter virado pena e voado pra mais perto de mim. Eu amava aqueles olhos, mas aqueles olhos não me amavam. Bob se afastou, se perdeu entre tantas atuações, perdeu-se de si, perdeu o rumo de casa, perdeu os amigos, perdeu na vida. Pobre amigo perdedor! 

Nosso encontro foi de afeto meu e indiferença dele. Sentou-se na poltrona aconchegante que encontrou no meio da rua, esquina da farmácia com uma sala pra locação. Se ajeitou uma, duas, três vezes em sua casca de tartaruga, deu sua pata de gato ao ar e dormiu pra sempre ali, no único assento confortável que teve em sua medíocre vida. Sua lápide terá “Bob, o coisa”, pois – além de mim – ninguém o conheceu de verdade. Hoje sei que Bob está onde sua mente sempre esteve: nas estrelas.

Apesar da indigência de personalidade, estou satisfeito, ao menos uma vez em sua vida, Bob teve um gesto afável de um amigo que lhe deu conforto perante a morte. Vá em paz, meu amigo Bob. Foi bom te conhecer, foi triste te perder e uma honra lhe servir de poltrona. ❤

Ei, Bob, pare de mudar de pés. Seus tênis listrados são lindos e seu sorriso de dentes de leite também.


Sincero, eu espero
Gui Morais
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1 comentário Adicione o seu

  1. Allefh'Medeiros disse:

    Que pena que o Bob não se curou.
    As estrelas são irresistíveis, eis o motivo porque são mortais.

    Curtido por 1 pessoa

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