Amor em carne viva

Corremos. Cansamos.

Agora estamos andando. Estamos perto. Abaixei o rifle. Tirei o explosivo do bolso. Deixei a faca cair no chão. O cacetete já não está na parte de trás da minha calça. O arco e flechas foram jogados de lado. Nem o pedaço de garrafa da cerveja que entornei acompanha meus passos. Desarmado!

Tirei o colete, estou vulnerável. A camisa desabotoei, dobrei e pousei sob o chão, vê que não escondo nada no peito. O cinto alarguei, soltei, e não mais te enforcarei. A calça deixei sambar e cair, enquanto ando, ficou pra trás junto com meus passos, meus prantos, meu desejo de me vingar. Os sapatos não foram difíceis, logo saíram por conta, sabiam que tinham de me deixar como as areias passada nas quais pisei. As meias, mais apegadas, quiseram insistir em seu elástico gasto, mas nada que uma mãozinha não resolva: ficaram lá atrás, cada vez mais atrás, cada vez mais passado e esquentaram não mais pés mas rancores e dores. A roupa íntima, com um dedo, mandei descer, se esconder e abandonada ficou. Nu!

Arranquei os fios do cabelo. Tirei unha por unha, dos pés primeiro, das mãos depois, a última foi com o dente, do qual – com um pouco de força – tirei em seguida. Arranquei os cílios, os pelos do corpo e uma espinha das costas. Deixei o couro cabeludo de um lado e os pensamentos ruins de outro. Arranquei delicadamente minha pele. Deixei o sangue jorrar, se revelar e os músculos tomarem sol. Exposto!

Caminhei com dor e dilacerei os pedaços do meu peito. Retirei o pau. Deixei a pouca bunda que tenho no caminho. O sexo não me move mais. Retirei alguns tendões, porque quero me sentir solto. E deixei apenas o necessário. A carne viva ardeu, te encontrou e, finalmente, quando os dois puderam olhar o verdadeiro interior, retiramos juntos os músculos, a boca, as pernas, os braços e, por fim, os olhos. Almados!

Me tirei de mim mesmo, aos poucos. Deixei o orgulho esvaecer. Deixei as mágoas evaporarem. Deixei a história nos abandonar. Não precisamos mais dizer. Não precisamos mais nos ver. Não precisamos mais transar. Apenas nos sentirmos: Amados!


Sincero, eu espero
Gui Morais
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