Amar pequeno, quem vamos?

Estive rolando meu feed do Facebook em completo tédio. (O “rolar o feed” é a nova troca de canal.) Foi quando me deparei a um grupo de adolescentes reunidos, aplaudindo uma grande performance, com flores, chocolates e declaração de amor pra todo o sempre, em um pedido de namoro. Os uniformes lhe revelavam a idade, a excitação com o furdunço lhe revelavam a imaturidade e o pedido exagerado nos revela que passe o tempo que passar, um adolescente será sempre aquele que vive o presente com o ardor de um drama Shakespeariano. 

Entretanto, lembrei dos status em mutação constante ao estilo Raul em sua metamorfose ambulante. Os relacionamentos viraram circo, puro entretenimento, puro fervor do momento, puro arrependimento. Me pergunto, assim, onde a simplicidade de amar pequeno mas tanto e amiúde foi parar? A paixão é linda, é vermelha como o sangue e violenta como a sofreguidão, mas não é amor. A beleza de amar foi perdida e tornou escassa. A aridez desse sertão de amor tem nos deixado sedento e a qualquer gota de algo aquoso (ou sentimental, no caso) já nos move aos montes para a dança de agradecimento (ou acasalamento, no caso). Procura-se o amor, recompensa de felicidade à maresia. Romeu & Julieta contracenaram um lindo romance, mas na vida real – se não fosse em empáfia “juntos ou morte” – sobreviveriam enquanto casal? O exagero empregado na fala já faz a Mãe Diná e prevê que isso aí não vai durar. 

A maré fraca é paz, terna, pode ser eterna. Essa onda forte, que bate, atropela e afoga, vem só de passagem… Ainda bem, imagina viver no tormento de uma tormenta?! Deus que nos livre, nos ensine novamente a amar, olhar pequeno o grande amor, viver pequeno o grande amor, ser pequeno se comparado ao amor. 

Amar pequeno é amor de papel, cheio de histórias, delicioso de ler e reler. É amor que com o tempo envelhece, pega cheiro, pega cor, muda a textura, guarda-se por séculos. Pode-se molhar, rasgar, amassar e perder-se e, por isso, pede cuidados e mede a espessura das canetas que lhe pintam. Diferente do amor de ouro que atrai a cobiça, prestigio dos flashs e serve para mostrar, ilustrar e apenas escancarar, mas que – no fim – não passa de uma pedra que cintila sem motivo e será vendida pra quem der o maior lance. 

Se alguém aí ainda conhecer o amor nos pequenos, por favor, contacte comigo e vamos colocar na exposição de algum museu. Mas vamos emplacar a proibição de selfies, eventos, filmes ou livros inspirados neste, afinal é pra apreciar sem luxo, sem festa e sem algazarra. É pra respirar e não suspirar. Isso se ninguém resolver que o amor simples é vulgar demais, é diferente demais, é errado demais, é demais, e com isso querer nos tapar o coração e abolir a exposição com suas petições barulhentas, mordazes, dramáticas, absurdas e inconsequentes… Assim como os adolescentes.


Sincero, eu espero
Gui Morais
facebook.com/sinceroeuespero
instagram.com/mr.gmorais
perfil

Anúncios

Desabafa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s