O dia em que (quase) morri no voo com meu vô

Que os bancos de aviões são estreitos para certos avantajados, a gente sabe. Mas quando o ser é antiquado, não dá! A boca aberta e o ronco alto, a gente perdoa – quem nunca?!. O braço deitado no meu, a gente perdoa – xinga mentalmente, mas perdoa. Mas colocar a segurança de um voo inteiro (comigo dentro) já é demais.

Todos sabem que fumar não pode, levar mala grande não pode, celular não pode e mais uma lista simples que qualquer ser humano comum pode, naturalmente, deduzir. Na dúvida, eles falam, repetem e ainda tem papelzinho bonitinho, bem diagramado e ilustrado na nossa frente dizendo o que pode, não pode, como devemos agir em casos extremos e até um anexo com o que poderemos pedir pra comer.

Então, meus senhores, o celular com 4G ligado nas nuvens não dá! Querer receber foto no whatsapp da netinha andando de bicicleta em plenas alturas não dá! Ter a pachorra de procurar sinal da operadora, na dança clássica das mãos para o alto (novinha) abanando, festejando, se mexendo e xingando, pra mandar sua mensagem de saudades a palmos e mais palmos do chão não dá! Ou vai me dizer que também quer fazer um checkin no Facebook com a legenda “mais pertinho de Deus e do Bastião, aquele cabra safado que roubou Mirna, mas bateu as botas antes de mim. Brinda com o Pai aí, amigão. Que eu brindo com a Mirna aqui!”, acontece querido cover de Papai Noel, que não vai brindar com ninguém se quiser continuar usando a 4G no céu, aliás é pra lá que você vai se continuar: pra junto de Deus, Bastião e o brinde à vida. O senhor sabe onde fica o modo avião, meu senhor?! Dê aqui que eu te mostro, antes que morra como um assassino em série (e me leve junto).

Entretanto, uma intervenção divina entra em cena em rompante aos meus pensamentos mais hostis destinados ao velho senhor, afinal me deparei com ele, o par de All Star branco. E pensei que aquele senhorzinho do meu lado poderia ser meu avô. O avô que nunca conheci, mas sempre quis. O avô que me jogaria para o alto, me daria doce escondido da mamãe, tentaria receber uma foto minha andando de bicicleta no voo e procuraria sinal pra dizer suas últimas palavras: estou MORRENDO (desculpe o trocadilho) de saudades, mas não esqueça que vovô ama você.

O comissário anunciou a turbulência. Nós dois sabemos que é sua culpa, mas tudo bem, vô, pode matar a gente, será nosso segredo, igual os doces que me deu na surdina. Pelo menos morrerei ao seu lado (e pé com pé com seu All Star branco). Espero que na mesa de Bastião tenha lugar pra mais um!


Sincero, eu espero
Gui Morais
24 anos, publicitário
Facebook: Sincero, Eu Espero
Instagram: mr.gmorais
perfil

Anúncios

Desabafa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s