De repente casado

Era uma noite de quinta.

Estava frio lá fora e entramos no shopping. Quis olhar aquela loja de louças bonitas, com coisas importadas, de prata, com nosso nome gravado se pedirmos. Estou montando meu apartamento, eu disse, vai que algo me inspira pra comprar um semelhante no 1,99 depois?

As prateleiras reluziam com os inoxs bem polidos e nossa cara de pau de quem não tem um puto no bolso, mas que fingia escolher a prataria de casa. Qual ficaria melhor no meu apartamento? Não sei, mas gosto desse, você me disse. Esse não, muito colorido, gosto de preto e branco, respondi. Logo você me pediu que tivéssemos uma colher vermelha. Surtei! Como assim uma colher vermelha? Já não disse que é tudo sóbrio? Nossa casa vai ser um arco-íris, um rebu de cores, São Paulo em sua poluição visual encubada em alguns poucos metros quadrados?

Surtei com a colher, com o jogo de saleiro que pareciam os Power Rangers com buracos na cabeça, com os pratos, os talheres, as panelas estampadas, as taças coloridas, mas aceitei os copinhos de dose furta-cor, uma jarra cheia de arabescos e até o cantilzinho pra você parecer artista de cinema, anotei no bloco de notas do iPhone algumas coisas pra pedir no casamento, risquei os que não queria, fiz observações, abordagens persuasivas e simpáticas, escolhi o que cada padrinho daria, chamei a atendente, perguntei seu nome, perguntei de promoções, perguntei quando chegaria o jogo de fondue que eu vi uma vez na vitrine, perguntei onde deixaria a lista do casamento e disse que ainda havia muita coisa pra se resolver. Senti ansiedade, vontade de vomitar, minhas mãos suavam, minha franja colou na testa, o estômago fez manifesto, a boca ficou ácida, o mundo amarelo, vermelho, cor-de-rosa, sorri que nem bobo, fiquei feliz, animado, preocupado, um misto-quente-de-emoções, afinal qual seria o buffet?, as flores precisam ser as mais bonitas e simples, a decoração sóbria e elegante, o local bonito em meio às árvores, os convites!, os convites não estão prontos, precisamos correr! Você me olhou, nos olhos, desarranjado, respirou fundo e disse: não estamos casando.

De repente meu mundo caiu com Maysa. Olhei ao redor, eu tinha 24 anos de novo, solteiro, morando sozinho, sozinho. Mas, meu amor, eu te digo que por um momento nós estávamos casando e já brigava pelo padrão nas cores da louça. Por um momento nós já estávamos casados e eu escolhia meu lado da cama. Por um momento procurei nossos filhos pra pedir que parassem de correr. Por um momento éramos eu e você em nosso futuro e posso te dizer com toda a certeza do mundo: éramos felizes. 


Sincero, eu espero
Gui Morais
24 anos, publicitário
Facebook: Sincero, Eu Espero
Instagram: mr.gmorais
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