Inundei e não sei nadar

Estou longe da Costa e de costas pra vida.

Meu coração levou tanta surra que está com hematoma permanente. Minhas angústias são traduzidas em tristezas que vão inundando e escoando e me fazendo inchar, derreter, desmanchar, vazar pelo ralo da vida e submergir em mim mesmo a ponto de transbordar em lágrimas de quem já chorou ontem, está chorando hoje e vai chorar amanhã. 

Estou em águas, perdido, abandonado em pleno auto-alto-mar, sem Wilson de companhia. Tem água pra todo lado e sem terra à vista. O céu anuncia chuva, das grandes, mas meu problema não vem de cima, mas de frente, costas, lados, todos os lados. Porque estou inundado e não sei nadar. Submerso, sem fôlego, quanto mais tento mais me afogo nessas águas movediças que me abraçam, me pesam e me afundam. Aqui embaixo, pelo menos o mundo é silencioso, não tem medo, aflição, outras pessoas, julgamentos ou preocupações, aqui é azul, eu estou azul agora e azul quero ficar.

É a tristeza que comanda e manda o corpo se esparramar por dentro e se espremer por fora, pra não deixar nada saltar, nada fugir, nada nadar, pra continuar compacto em pacto com o corpo, até cair em si pra não morrer em si. 

Você vai me entender quando a tristeza se alastrar por todo o seu corpo e virar patológica. Quando existirem pessoas ao seu redor mas se sente sozinho, porque você se abandonou de si. O lugar vai estar lotado, você vai estar inundado, aguado e, ao mesmo tempo, vazio. As pessoas vão sorrir e você vai fingir um sorriso mal ensaiado no espelho manchado do banheiro, pensando em chegar em casa, com seu espelho sujo, seu banheiro, seus móveis, seu canto, suas tristezas. Então deixará o gesso de lado e sentirá transbordar. 

Sua música favorita vai estar na rádio mas você não vai cantar. Sua comida favorita vai ficar pronta e você nem vai tocar. Sua pessoa favorita do mundo vai te ligar mas você vai estar decepcionado com ela. A segunda pessoa favorita do mundo vai te ligar mas você vai se decepcionar porque ela só quer saber dos fones que deixou contigo na semana passada. Seu cachorro vai se espreitar com calma, pedir carinho, mas você vai ter medo de afoga-lo como está se afogando. Alguém nos vê um bote salva-vidas, por favor!

O alagamento preanuncia dilúvio. São ruas de São Paulo em período chuvoso. Céu também. O cinza toma conta. A água toma conta. A merda vem à tona. Tudo põe em risco. Salve-se quem puder! Me agarro nos carros das boas lembranças, nos postes das boas pessoas e salvo os cachorros que me fizeram sorrir. É a força natural contra a fraqueza natural. Quem vencer, quem perder, é natural. Porque viver é natural e ficar triste faz parte da vida e não da morte.

Um dia eu aprendo.


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.
Instagram: mr.gmorais.
IMG_1783

 

Anúncios

Desabafa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s