Nossa asma de cada dia

Ela era asmática. (Se não era, virou.)

A boca tão doce, apertada, enlaçando um lábio noutro, entrelaçando um segredo noutro. Deu um nós nos dedos, outro nos aflitos e conflitos da mente. Apertou a calça jeans e não deixou os olhos afrouxarem. Tentou falar mas a fala a traiu, faltou e nem avisou, mal-educada!. Garganta fechada, pulmões também. Bem como a retórica, o pensamento esvaiu-se, foi pro mesmo refúgio do seu ar. “Venham todos, há lugar para vocês”, só não houve espaço pra ela. Afinal, desta vida só se sai de um jeito, e forca é brincadeira de criança. Onde estão os adultos?

Crescer tem mais a ver com saber, conhecer, reclamar, tomar café, ouvir músicas calmas, pensar no que se passou, tentar pagar as contas, se controlar pra não enlouquecer, se controlar pra não exagerar na dose, se controlar pra não pôr mais um Lexapro na língua, se manter vivo perante os erros e também diante dos acertos. Sim, os erros, é difícil aceitar que errou, orgulho fere, ego fere, você se fere e se difere. Sim, os acertos, é difícil controlar o orgulho, o ego e você mesmo sem se afogar no mar aberto bestial da imodéstia. “Se amar” está sofrendo escassez, “ser humilde” está extinto. Onde estão as ONGs?

O pulmão colou. As paredes não tinham mais ouvidos, boca, nem sentido. Onde estão os médicos? Tudo estava selado, apertado, subordinado à inquietude da alma ao gozo da insatisfação pessoal do ser em prol, e escrava, do ter. “Odeie”, diziam eles. “Mas quero amar”, defendia ela. Pouco sabia que, neste caso, a voz do povo não era a voz de Deus, mas a de uma humanidade finita entregue à devoção do prato frio no Menu da vingança, gerenciado por ninguém mais e ninguém menos que um ser humano triste. Onde estão os gastrônomos?

Entretanto, enquanto procurava cá e acolá uma única alma pra te escutar, ela desabou. Chorou. Se entregou. Gritou. Berrou. Aliviou. O anônimo que lhe estendeu a mão a ouviu, falou de amor, do horror e de amor mais uma vez. “Amor é a salvação”, disse ele, “pregar é piedade social”, concluiu. Onde estão os devotos?

Inflada, exaurida, o ar finalmente descolou as camadas tristes de seu eu, tomou forma novamente, flutuou pela primeira vez (em anos) e os olhos, como faróis de caminhão na estrada gelada de uma noite chuvosa, iluminou o próprio caminho. Ela era seu segredo, seus aflitos, conflitos e salvação. Nela pôde se encontrar a saída próxima à direita. A saída de emergência sem sinalização. O parágrafo de libertação. Onde estão os escritores?

Nesta inquietude vital é que condecoramos como a parte cruel nos toma bagagem espiritual e como a falta (ou excesso) de decoro nos toma tempo de vida. O vômito dolorido expulsou o peso em única fala. A escatologia tomou conta da cena em busca da ontogenia humana. O coletivo mandou carta de saudade. O altruísmo, a esperança, a ajuda mútua e os demais departamentos compartilhados tomaram como exemplo e também fizeram seus coros. Foram ouvidos! Depois de tanta dor, revelou-se, como a flor desabrocha na primavera, o laço do presente é desfeito e o beijo sela o amor eterno, que o único lapso que a alma ansiava era pelo ombro, o ouvido, o calor que só um corpo humano pode fabricar e uma palavra de amor. Assim, só assim, a asmática pôde voltar a respirar. Onde estamos todos nós?


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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