Saúde!

Já tentou espirrar fazendo uma manobra rigorosa no trânsito?

Estávamos todos fazendo a curva, cada um pronto para garantir seu posto em uma das três pistas da rua, trilha sonora de Hans pra “Velozes e Furiosos”. Eu estava em posição de vantagem, quando a súbita vontade de espirrar irrompeu em quebrante minha performance. Não segurei. Fechei o olho e espirrei. (Saúde!)

Bocejar de olho aberto até que vai, mas espirrar de olhos esbugalhados é manobra demais pra mim, mais até que a complexidade das divisão de pistas naquela cena de aventura. No espirro você solta bactéria, adrenalina, alma e maus amigos. É a alforria dos demônios. É liberar o pulmão pra respirar melhor, as costas pra se endireitar melhor, a mente pra pensar melhor e a vida pra se viver melhor. Quando você espirra a mente dá folga, os sentidos cedem e o mundo parece mais calmo. Espirro é expressão corporal e espiritual da liberdade em seu ideário do ser. É pague um e leve dois, com a libertação e o desejo (ou sinal, segundo a história) de mais saúde. É quando você sabe distinguir quem ao seu redor te deseja o bem e quem não liga pro teu óbito precoce. Num único espirro você filtra as pessoas que quer estar ao lado pro resto da vida. (Saúde!)

Perdi a corrida, quase causei um acidente, xinguei alto, fui xingado, levei buzina, pedi desculpas, vi o rebu no trânsito, a curva mal feita no último segundo da Fórmula 1, perdi também a posição, a carteira, a fé, a disputa, o equilíbrio, a dignidade, o volante, meu lugar na pista, a música da rádio, a moeda do meu bolso, o topete tão milimetricamente arrumado, o hidratante labial e algo que ainda não dei por falta mas que um dia acharei debaixo do banco, nem sequer me desejaram saúde, mas pelo menos espirrei. (Saúde!)

Se vier com recheio, gosma, nojeira é de menos, qualquer papelzinho resolve. Problema mesmo é quando ele ameaça vir mas não vem. Imagina o dia sem o tal do espirro que prometeu a visita? Você prepara o terreno, a casa, a família pra tal desagradável e ela simplesmente não aparece na hora combinada, nem depois e nem mais tarde. Já se ela bate na porta é bom atender, deixar a visita lá fora é compactuar com o pensamento negativo sem bater na madeira. Seria o dia errado, inteiro incompleto, todo sem sentido, dia perfeito pra se tirar do calendário da vida, sentimento de que ali (naquele breve momento) houve um furo no espaço que te roubou algo. E roubou mesmo: a liberdade, a expressão, a força, o controle, o espirro. (Nada de saúde!)

Espirro é divino, seu mau sucedimento é humano. Espirro é liberdade, sua falta é disparidade. Quando o espirro vem mas não sai. É repreendido. Fica apreendido. Da agonia. É brochar perto do orgasmo. É desespero em formato de espirro. É punição pela sua contração diária de orgulho e preconceito. É o ter de conviver sem o desejo de saúde pelo terceiro. É pânico em lembrete de que tudo pode realmente piorar. É aquele quadro torto. Aquela xícara sem pires. Aquele garfo sem faca. Aquele copo rachado. Aquele prato sem conjunto. Aquele Buchecha sem Claudinho. Aquele lápis despontado. Aquela caneta sem tampa. Aquele papel amassado. Aquele caderno sem capa. Aquela história sem fim. Aquela crônica sem ponto final 


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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