Talvez você entenda quando tiver uma crise de ansiedade

Talvez você entenda.

Talvez você entenda quando suas mãos começarem a tremer. Uma avalanche de sentimento te inundar. E seu coração resolver sambar ao ritmo de Brasileirinho. Tão rápido, tão intenso, tão forte, que a qualquer momento seu peito pode se abrir ou mesmo explodir.

Talvez você entenda quando seu ouvido ficar rígido em perfeita harmonia com seu ombro. Vai ouvir vozes, alvoroço, um rebu instalado na sua mente com direito ao canto lírico e agudo d’uma cantora de ópera e sua voz locutando três, quatro, seis, dez histórias ao mesmo tempo. Entre elas um “você vai morrer”, intercalado ao “se não morrer, se mate” e, pra finalizar, “tá chovendo e a janela ficou aberta”.

A boca secar, a garganta fechar. Por ali nada vai entrar e nem sair, nada de ar, nada de bacon, nada de voz, nada de vômito, mesmo que este último pegue um banquinho, se sente do seu lado, se sirva de uma cerveja, apoie a cabeça no seu ombro e te peça em namoro. Mas você não responde, não grita, não pede por ajuda, porque nem você sabe como se ajudar.

Talvez você entenda quando a linguagem fugir do externo pro interno, passar a viver só lá. Você nada vê, você nada ouve, você tudo pensa. Não tem choro, não tem vela, não tem reação só ação. O mundo se acopla na sua cabeça tamborilante numa dor pouco latente, abafada pelos tantos sintomas gritando na tua pele. A dermo vai arrepiar, ficar sensível, desejar expulsar-se. Isso mesmo, expulsar-se de si. Talvez seja neste ato que o suicídio brilhe.

Talvez você entenda quando o mundo a sua volta girar e não fazer sentido. Tudo parecer afiado, com ferpa, pronto pra te machucar. Você parecer frágil, de seda, pronto pra ser machucado. A tensão vai pressionar a cabeça e ela será esmagada. Você vai parecer se afogar na tua própria imensidão ansiosa, entregue ao seja lá o que Deus e a gravidade quiserem.

Talvez você entenda quando achar que o mundo é cruel, que as pessoas são cruéis, que sua mente é cruel e ter a certeza de que você é cruel. Quando a vida parecer pesada demais pra sua escoliose e posta de uma intolerável regra social que não te satisfaz. Quando a felicidade lhe faltar à faculdade e as possibilidades ao bolso. Quando tudo parecer injusto e você podre por merecer tal injustiça. Quando tudo parece não acabar, a não ser você que já desmoronou. Quando as memórias boas lhe faltarem à mente e perceber que tudo o que restou foi sua impiedade.

Talvez você entenda quando a respiração voltar, aos poucos, a cabeça aliviar aos poucos, os músculos descontraírem aos poucos. Ao seu redor focar. O coração voltar a bater ao som de Wave. A mente esvaziar. E não mais querer vomitar. Vai olhar em volta e perceber que nada passou de uma crise. Que esta eternidade durou só três minutinhos, suficientes pra te apresentar à insanidade. E, por fim, a única coisa que você vai querer é uma cama pra dormir e um celular pra avisar a sua mãe que você ainda está vivo.

Talvez você entenda, talvez não.


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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3 comentários Adicione o seu

  1. A Anônima disse:

    Só quem conhece essa realidade consegue compreender o esforço que alguns dias é necessário fazer para sair da cama e encarar a rotina. E pior ainda se no meio, aparecer alguma coisa (qualquer coisa) que mude esta rotina.

    Amei seu texto ❤ Obrigada, por conseguir transformar meus sentimentos em palavras.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Gui Morais disse:

      Obrigado eu, por fazer meu texto valer a pena por este comentário. ❤

      Curtido por 1 pessoa

    2. Gui Morais disse:

      PS: Estamos juntos nessa! 😉

      Curtido por 1 pessoa

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