A Nova Onda do Elevador

“Você não pode pisar duas vezes no mesmo elevador, pois outras pessoas e ainda outras, vão exalar.”

O interfone tocou em urgência. “Desce”, dizia ele em voz meio chucra meio gripada, lutando contra os ruídos (preciso trocar meu interfone, espero que seu Manoel leia isso e me lembre) “Tua encomenda chegou”.

Seu Manoel à parte, chamei pra junto de minha jornada o elevador. Shorts de praia por cima da cueca samba, camiseta velha de dormir cantando a letra de Royals, num fingimento poliglota que ninguém sequer crê. “Amo essa música”, uma vez me disseram. “Ganhei”, respondi em tom de “não faço ideia que música seja”, porém mais tarde veria que era Lorde, santo Vagalume.

Auxílio eletrônico da história principal posto, adentrei e bêbado fiquei. O cheiro era de rosas. Alguém havia entrado na cabine de metal e deixado seu rastro fétido eu diria, muito doce, muito forte, muito-muito, repercutindo e curtindo ali naquela caixa fechada que é o elevador. Pensei em retornar, descer de escadas seria a escolha certa. Mas como moro no último andar do prédio, o rapaz me esperava à noite, no frio, correndo o risco de piorar a gripe e chucreza dele, resolvi tapar o nariz e me render ao meu sedentarismo que já faz parte do Status Quo deste que vos fala.

A mulher (deve ter sido mulher), certamente era de meia idade, com uma dúzia de cachorros na casa, roupinha de ficar de molho nos finais de semana com estampa floral, chinelo arrastando, que se arruma em dias santos ou dias como este de hoje. De modo a tirar o perfume do armário e substituir o banho higiênico pela água colonial. Preconceito meu com cheiro de rosas.

Pego a encomenda, volto a pedir o elevador. Desta vez, seguro para uma mulher mais jovem, dentro do seu vestido de oncinha e salto 15, cabelos escovados e maquiagem à boa Drag Queen. Penso em elogiar, soaria cínico, visto que só minha olhada já a constrangeu. Guardei pra próxima! Dentro do elevador, mais um cheiro veio a me entorpecer. Desta vez cítrico, cheio de vida, mas não menos forte. “Essas pessoas não sabem usar perfumes”, murmurei enquanto torcia pra chegar logo no número 4. 

Certamente esta mulher (de fato era mulher), estampada em seus quase 40 anos, estava animada e se preparou por longas horas escovando ou mesmo gastando seu salarinho de início de mês no salão de costume, com Ivone lhe dizendo “essa noite você vai arrasar, menina. Deixa comigo!”, e nem a apreensão ou o suadouro debaixo do sovaco lhe deixariam de pernas bambas em cima da sandália preta de strass, mas o homem que veio lhe buscar sim. Preconceito em cima do 15.

Elevador deixado, por mim desta vez, em sua bela ilustração contemporânea do Devir de Heráclito. Terminei minha jornada, por assim dizer, abandonando a cúpula com o delicioso cheiro de alguém certamente faminto, jovem, com um cachorro chamado Sherlock, sem comer desde o meio dia (mesmo já sendo noite), taurino, portanto comilão, mas que agora iria se satisfazer e deliciar, como o cheiro denunciava, com uma pizza tamanho GG. Esta é a nova onda do elevador! ❤ 


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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