Eu crio unicórnios (e também não sei mentir)

Eu tenho problemas com mentiras. Sou um péssimo mentiroso desde que me entendo por gente.

Quando arriscava uma mentira, por menor que fosse, bastava duas perguntinhas sem pestanejos de minha mãe pra que eu entregasse o jogo. Me embanano. Não sei mentir. Teço narrativas que não se unem. Sou péssimo no improviso e tenho memória ainda pior. Nunca lembro qual barcada foi a última contada. Fato que desenvolveu a sinceridade, se instalou, ficou, virou característica acentuada em minha identificação.

Passei a praticar a verdade, já que desde muito pequeno percebi minha falta de talento pra mentira. Hoje sou conhecido por falar na cara o que realmente penso, não que tenha a verdade como virtude, e sim a mentira como algo que me foge a competência. Pra mentir tem que ter dom! Mesmo que do mal.

Essa história de mentira pequena, pro bem, mais me parece discurso de mentiroso tentando passar a mão na própria cabeça e atuar com maior liberdade. A mentira vicia! Tu começa com uma pequena e emenda a grande, não para, não tem fim até que a verdade corte o mal pela raiz. Mentiu uma vez, mentirá outra. Se sair bem sucedido de alguma delas, já garante a faixa de mentiroso pra deleite pessoal, mas jamais assumido em público. Teme o julgamento porque sabe do perigo. Acontece que o dono do julgamento é o mal lavado da tua sujeira. Tudo farinha do mesmo saco. Tudo esperma da mesma raça. Tudo mentiroso da mesma laia.

Mas em público, todos somos santos castos com libido apenas na verdade divina. Lorota! Com essa, nem boi dorme mais. Por quê não nos assumimos pertencentes a uma civilização mentirosa logo? Dizem que patologia se resolve apenas quando identificada. Nossa mentira já virou doença faz tempo, alastrou pela cidade, pelo Estado, pelo mundo. Todos mentem, e talvez seja a primeira generalização que não tenho preguiça de levar em conta. Até eu, em que a mentira falta habilidade, me pego produzindo a farsa vez ou outra. Se sou pego no pulo é outra história, menti, sou tão quanto.

Ainda dizem que a mentira tem perna curta, coitado de quem pensa assim. A perna é tão longa que deu a volta no mundo e você não percebeu. Tá abraçada em todos nós, respirando no cangote e seduzindo pro abate da fraude. É trabalho curto de encanto, match, hipnose, é fascinante a tal da ideia de inventar e ser levado a sério. Você cria seu próprio mundo de acordo com seus preceitos e o outro adere como verdade. Simplesmente fantástico! Ótima tática pra não ter rebu. Ótima tática pra fugir. Ótima tática pra acovardar.

A mentira é turista, dança pelos mais diversos departamentos do estado humano. Ela mente nas relações com o outro e com o eu. Quem nunca mentiu pra si mesmo, que atire a primeira língua preta! Ás vezes a tal da inverdade é cômoda. Funciona como droga: deixa o real mais aceitável, menos injusto, mais desejável e confortável de se estar. É a leveza do ser que, apesar de insustentável segundo Kundera, alivia dando abertura pro suspiro que não damos durante o dia. Funciona como a fugidinha pro banheiro, durante o horário comercial, só pra respirar, olhar o celular e jogar uma água na cara. É a esperança do SOS escrito na areia em meio um naufrágio. É a rapidinha, depois de meses sem trepar, no banheiro do bar. Mas também pode ser a catástrofe que te leva à morte pela ambição, mania e a esnobe grandeza do ser que não se contenta com uma mentirinha aqui e ali. Isso é o que eu chamo de insatisfação pávida.

A neurose nos levou à verdade inventada. É a vaidade humana em desejo de ser Deus. De criar o próprio real. De se livrar do real-real. De fugir das suas ações. De evitar se constranger por não aguentar o peso da sinceridade. Da crueza. Da pureza. Da minha inveja por você saber contar uma mentira sem contorcer os lábios, olhar pro lado e fazer cara de quem está aprontando.

Sou sempre pego nesse jogo, droga!, queria dizer que crio unicórnios.


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
24 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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