Comum e singular, prazer

Sou mais simples que pareço e, portanto, mais incompreendido do que deveria.

Sou a maior junção de clichês. Somo em mim todas as cafonices sociais de constituição de um futuro. Quero casar com o cara que amo, ter filhos, uma carreira estável, tomar café de manhã, Coca à tarde e vinho à noite, cozinhar em família, levar os filhos na escola, ir ao cinema nos domingos, assistir filmes com almofadas no chão e pipoca caramelizada quando chover, brincar de sombras quando a luz acabar, criar uma cabana de lençol e desbravar o mundo imaginário dos pentelhos com direito ao traje à rigor (da aventura), enfim quero uma vida calma, sutil, feliz.

O “feliz” é instante, instável e sub. Não há meio sólido, mas sinto que a maré baixa nos deixa correr e bater os pés na onda, tocar a terra, colher conchinhas e mergulhar sem medo. A alta é turva, turbulenta, dá caldo, não há coração que aguente à onda forte em contiguidade. 

Verso simples. Muitas vezes confundido com “complexo” ou “difícil”, mas a dificuldade é de lidar com esta imparidade que não passa de forma simples. Simples. Sou rendido pela indústria e suas peripécias que propagam a manteiga, a Coca e o Mc. Com suas famílias despreocupadas, vestidas de branco a Omo Multiação feat. Vanish. Mas fujo das convenções da perfeição, naturalmente. Quero o branco e calmaria, mas também quero o colorido, o vinho, a mancha de café na calça de manhã, a ruga intervindo a pele, a olheira de uma noite mal dormida, a dedicação da hora ao próximo, o cabelo embaraçado e pontudo atrás por um cochilo clandestino no meio do dia, uma dança bêbada com meu amor no meio da sala, no meio da noite, no meio do (meu) mundo. Quero deitar cansado e dormir no sofá, acordar ainda lá, rodeado do cachorro, dos filhos (que mais tarde desafiarei a escoliose, acomodando um por um em suas camas), do meu marido, da TV na programação ruim da madrugada, os porta-retratos cheios de história, o cheirinho de lar, de muito, mas muito amor e da certeza de que fiz as escolhas certas na vida.

Percebi que falei muitos “queros” ao decorrer do texto, sonhar não custa. Ser brega também não. Por isso dispenso as loucuras boêmias e adoto as anedotas e poemas de Drumond, bem organizados, polidos e cuidados numa estante grande de livros, bons livros, com dedicatórias carinhosas e cheirinho de página boa confundida ao cafezinho que emana da caneca do homem que, neste momento aparando um óculos na ponta do nariz, rabisca os textos dos quais mergulhou e se prepara pra mais uma de suas facetas intelectuais, escolhi pra ser meu. ❤  


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
23 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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2 comentários Adicione o seu

  1. Para o Marco! disse:

    Achei o seu texto esplêndido!

    Curtir

    1. Gui Morais disse:

      Muito obrigado! 😀

      Curtido por 1 pessoa

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