Não sou ciumento, a sobremesa que estava estragada

Foi na sobremesa que percebi que eu sou doente de ciúmes. Preciso me tratar.

Quem te deu a sobremesa? Por quê? Com quem você tem andado? É um dos amigos novos? Ele sabe que você tá namorando? Aliás, você sabe que você tá namorando? Porque se não souber tô aqui pra te avisar. E se achar que não, me avisa pr’eu também provar o Petit Gateau alheio.

O sangue ferveu. O rosto vermelho. Contorcido numa mistura de dor e ódio. Dor pela avalanche de possibilidades em perder meu amor, com um reles gesto de flerte. Ódio por não ter comido a primeira garfada.

Uma vez, no carro, ele disse que meu ciúme tornava tudo tenso, denso, imenso. Era desnecessário e o retraia. À merda! Um sentimento intenso desses, pra tamanha desfeita. Dedico a outro se não gosta. Mentira!

Ciúmes é insegurança disfarçada de amor. Se essa desculpa não colar, tenho outra na manga: taurino, prazer. Falo com experiência (vasta) de causa. Na pior remada ainda arrisco uma reflexão de quinta: não sou ciumento, só cuido do que é meu. “Egoísta. Em que mundo você vive?”

Vivo num mundo muito louco onde as pessoas são capazes de tudo. Inclusive de desrespeitar quem se ama. Inclusive deixar de lado, deixar de amar. Inclusive de fazer mal ao seu. Inclusive de trocar um por outro, porque a canseira bateu à porta ontem à noite. Inclusive de ir e não voltar. Inclusive de esquecer. Inclusive de superar. Inclusive de viver melhor sem você. Inclusive de inventar coisas na cabeça e acabar acreditando nelas. Meu caso é o último. SOS escrito na areia do naufrágio em que me encontro, remada de merda! Wilson, cadê você? E nem posso culpar a fome.

Cego, absurdo, sem noção, opressivo, abusivo, num se enxerga, sua altivez te envenena a alma! Pode regurgitar. Mancha minha camisa branca de bile. Coloca todo esse jantar pra fora. Molho vermelho, né?! Ótimo, combina com meus olhos que bradam em sangue. Só não me venha com a tal da sobremesa que foi servida, mal servida, por sinal. Sobremesa embuste. Sobremesa infernal. Sobremesa que me deixou com cara de tacho. Tachado de abestalhado. Queimando feito pimenta. “Diga, pra quem irá agradecer? Já pensou se será com beijinho?”.

A ridicularidade chegou em bando e banda. Tocaram “lá vou eu na avenida”. Mulatas e mulatos fizeram a festa. Fantasias no salão chamaram a atenção de toda a gentalha que assistia à procissão, pouco aclamada, do meu ciúme que desfilava na alegoria principal. Povo animado, feliz, sorriso plástico estampado, letra do ciúme muito bem ensaiada e cantada por cada sambista. Nota 10! Sambaram na minha cara e ficaram pra sobremesa. 

Falando nela, não vai se manifestar? Tira a cara de interrogação e pasmo. Pasmo está eu com tamanho deglute social. Engoliram a mim, sumiram comigo. Homem invisível. Faço parte da sua imaginação e talvez do seu passado. Ótimo enredo carnavalesco. Chegou a hora de você engolir: as palavras, nosso relacionamento ou esta sobremesa de vísceras. Minhas. Fique claro. Todo meu coração está posto à mesa. Vai engolir de uma vez ou resolverá mastigar um pouco? Pra doer mais, entende?! Ande! Não temos a noite toda, a sobremesa está esfriando. Nosso relacionamento também. Afinal, quem te deu a sobremesa?

– Ganhei do restaurante, pelo meu aniversário.
– Ah tá. Verdade! Feliz aniversário, a propósito.


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
23 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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