Compromisso social às 14: se matar

Acorda. Toma banho. Escova os dentes. Come seu café da manhã. Enfrenta o trânsito. Xinga no trânsito. Escolhe a música no rádio. Deixa os filhos na escola. Corre pro trabalho. Não necessariamente nesta ordem.

Às 8:30 tem reunião com a equipe de produção. Às 10:00 tem reunião com o fornecedor. Às 11:30 buscar os filhos na escola. Às 12:30 almoçar com o amigo-de-fora-que-resolveu-dizer-um-oi-logo-hoje, merda. Às 14:00 levar os filhos no inglês. Às 14:30 tem reunião com cliente novo. Às 16:00, mini-curso com a equipe de líderes. Às 18:10 voltar à enfrentar o trânsito. Não necessariamente nesta ordem.

Em casa, vai dizer oi pra família. Vai tentar se manter acordado pela família. Vai encarar a mesa farta, rodeada da família, pra tentar se fazer presente pra família. Vai sentar no sofá, assistir a novela das 22 pela família. Vai dormir, porque no outro dia a labuta dá replay, pela família.

A loucura não cede, mas tem sede. Ela bate na porta, pede licença. “Estou ocupado, volte outra hora.” Atrasou para o compromisso de respirar. Remarcou o de sonhar. Cancelou o de pensar em si. Repensou o de viver. “Alô, loucura?! Nem venha mais, estou partindo. Vou sem você. A forca já está armada, subo, desço, aguardo e logo saberemos se subo ou se desço, qual meu departamento espiritual. Espero que eu suba de vida, aliás, suba de morte. Espero que eu vá pro céu. Se for pro inferno também, não tem problema. Só não quero o limbo, Deus me livre ter de trabalhar até pós-forca. Ninguém merece! Nem eu. Talvez o síndico filha da puta que me multou por parar na vaga errada. Mas não eu.”

Afinal, sempre pregou a vida, o sucesso, as conquistas… Sempre se esforçou em viver. De nada teve a temer. Sempre foi forte. Conciso. Consigo. Conseguiu. Chegou. Lá estava ele: onde queria, onde sonhou, onde pretendia estar. Exuberante. Contraplongê social. Teoria retórica de Hitler. Falou e disse! Quis e fez! Grande homem este! Não necessariamente nesta ordem.

Jamais abriu o coração, homem forte. Jamais chorou, homem forte. Jamais disse o que sentia, homem forte. Fez sucesso com a mulherada, homem forte. Conquistador de primeira, fez acontecer com os corações e no mundo dos negócios, homem forte. Macho alfa, serviu sua masculinidade de herança aos filhos, homem forte. Nada de filho em teatro ou balé, filho dele é pra futebol, luta, homem forte. Filho dele não leva desaforo pra casa, puxou ao pai, homem forte. Filho dele resolve tudo no muque, na porrada, porque é assim que homem resolve suas pendengas, homem forte. Filho dele pega geral, bate na cara da mina que achar que tem direito sobre ele, homem forte. Filho dele fode a mulherada, homem forte. Filho dele nasceu pra ser rico, homem forte. Filho dele demonstra distúrbios sociais, levou à diretoria, levou carta ao pai, levou um “coisa de criança, logo passa” assinado debaixo do braço, homem forte. Filho dele cresce pra ser como o pai, homem forte. Filho dele matou três, bateu punheta, bateu o carro, bateu na mulher, se matou, homem forte. Filho dele inspirou o pai, que descobriu o desgosto, que descobriu que da vida nada sabe, nada se aproveitou, nada deixou, nada virou, homem forte. Carne podre pendurada pela corda, errou a última letra da brincadeira, perdeu na forca, enforcado, homem forte. 

O homem forte cresceu ouvindo “seja homem”. O falo é medido pela ação. Grande antro da perdição. Ser macho, afinal, sobressai à moral. Corda social. Cultural. Suicídio sem carta de adeus. A loucura tomou conta e a culpa pode ter sido sua. Mariquinha é o zica que se deve correr, a humilhação mor, o “atirar aos leões para deleite do povo”. Mulherzinha jamais. Eita racinha esta a da mulher, tão frágil, tão vulnerável, tão penetrável, tão estuprável, tão geradora de outras racinhas como esta. Mal tomou o mundo comercial e já quer dar tchau na janela. Cuidado com o bonde, tem outro passando, vai ser degolada. Tomara! “Deixa de ser mulherzinha”, “você bate feito uma mulherzinha”, “vai chorar? É mulherzinha por acaso?”, “fica nessa veadagem de sentimento, larga mão de ser mulherzinha”, “mulherzinha!”. Delicado é o cacete! Teor feminino é o caralho! Ser comparado à mulher? Deus me livre. Veado, então? Prefiro a forca. Não necessariamente nesta ordem. 


Sincero, eu espero,
Gui Morais.
23 anos, publicitário.
Facebook: Sincero, Eu Espero.

Instagram: mr.gmorais.
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