Adulto comprimido em comprimidos

Existe certa beleza no comprimido.

É comprimido. Tudo ali. Sua doença. Sua cura. Seu vício. Sua maturidade. “Torna-te adulto quando podes engolir seu primeiro comprimido”, era o que dizia minha mente. Pois engoli, continuei criança.

Não é o remédio em si, mas sua frequência. Quando se toma diariamente um comprimido para alguma coisa insistente, seja ela qual for, é sinal de que o estresse está no seu meio, a falta de tempo (paciência e disposição), de “vou esperar passar, me dêem um segundinho”, te ocupa. Você está cansado. Com dores. E só deseja uma noite tranquila. Por isso enfia goela abaixo aquela circunferência, formato oval, quadrado (existe?), seja lá a forma que for, o que importa é ter algo invadindo cretinamente sua garganta e estuprando suas vias propositalmente. Quase como um masoquismo, mas diminuto, bem diminuto. “Estou salvo” de mim.

Me peguei esses dias parado na cozinha. Meia noite. Os olhos já quase não se aguentavam. As mãos tremulas, para não perder o costume. E a perna vacilava, por vezes, ameaçando me levar ao chão bem ao estilo “vai descendo na boquinha da garrafa”. Ainda assim, ali estava eu. Refletindo sobre a vida. Estuprando meu esôfago com o comprimido. Desejando e esperando o alívio. Eram vitaminas, eu me sentia fraco. Não iam agir de imediato, mas minha mente sim.

Um, dois, três copos d’água. Só pra garantir que nada ficasse parado e me desse problema de úlcera no futuro (esse medo confere!?). Me senti grande. Me senti pequeno. Me senti maduro. Me senti cheio de preocupações. Me senti adulto. Me senti ridículo.

Sem sombra de dúvidas este foi o momento alto da noite e, foi quando eu percebi, que não se tratava do medicamento e, sim, do que ele simbolizava em meio aos meus valores: crescimento. Não necessariamente aquele positivo, que vem da progressão pessoal e profissional. Mas daquele que te dá rugas, responsabilidades e o “esquecer” do hoje por já estar vivendo aflito o amanhã.

Não tomo calmantes. Chego em casa. Esforço-me em alguma leitura (com sucesso). Como. Capoto. É simples, sutil, sem muito drama. No final de semana, para compensar a minha falta de disposição noturna, tento o meu melhor boêmio ao estilo “acordado até três da manhã, sendo produtivo. Vendo séries. Vivendo”. Logo me olho no espelho e vejo aquele menininho que tentava ver o filme da “Tela Quente”, na Globo, mas sempre acordava já na cama, levado pela mãe após os primeiros 3 minutos de filme. Só que este, tem rugas.

23 anos? Rugas? Rugas no coração, meu amigo. Por isso os comprimidos, eles chegam até lá. Eles fazem seu papel de ocupação interna. De auto-enganação. E, principalmente, de lembrança, quase como uma marca, de que você, eu e todos que chegaram ao fim deste texto, crescemos. Agora tomamos remédios, somos adultos. Adultos ridículos. Mas sinceros em assumir nossa ridícula obsessão pelo vício pragmático.

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Sincero, eu espero,
Gui Morais.
23 anos, publicitário.
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